literatura marginal * literatura subversiva * literatura terrorista * literatura terceiro-mundista * anti-literatura
terça-feira, dezembro 13, 2005
Fun, Babe, Fun!
Só eu sei o quanto é difícil penetrar nesse universo paralelo e estranho em que as garotas pensam, vivem e me julgam. Sim, porque a questão toda no fundo é julgamento e por mais que eu também seja um cara normalzinho e viva dando opiniões a torto e a direito sobre o modo de existir de qualquer fulano ou fulana que cruze o meu caminho, pelo menos eu tento me policiar. Não saio armado por aí etiquetando rótulos e disparando contra as tribos a troco de me sentir mais poderoso e mais in do que esses pobres adolescentes com camisetinhas de banda de rock neo-gótico. Eu cresci. E desde muito novo já circulava por entre as várias tendências e estranhezas que uma sociedade anárquica e pós-moderna pode oferecer pra alguém que tinha naquela época não mais do que quinze anos e adorava subir e descer pelas escadas rolantes (que não rolavam) da galeria do rock do centrão de São Paulo, ali ao lado do teatro municipal (seu burguês otário). Porque no teatro municipal mesmo eu só fui entrar lá depois de muito mais velho, já com a pose do intelectual decadente que não conseguiu ter saco pra aturar toda a enxurrada de burocracia que precede o solene ritual de entrega dos diplomas de graduação em letras e ciências anti-sociais. No colégio eu era amigo dos hippies, comia uma tiazinha com pinta de pin-up, tinha amigos entre os punks, freqüentava as festas da gaviões da fiel e pagava um pau pra turminha do black. Mas em lugar algum eu me sentia bem, sempre deslocado e blasé, com as latas todas de cerveja circulando pelo meu corpo entre um gole e outra gorfada na fila do banheiro –nunca tive pinta pra ser amante latino, desses que arrasam com o baile e ganham todas as loiras com um golpe bem dado de tacape na cabeça e depois carregam suas vítimas dentro de uma caçamba de pick-up rumo ao motel mais barato da rodovia raposo tavares. Meu negócio vai muito além de ter ou não ter estilo, de estar ou não estar na sua modinha, de seguir ou não seguir seus conselhozinhos de bacana que lê folha ilustrada. Comigo você vai ter que aprender novos idiomas, novos costumes, novos jeitos de fazer cada mínima coisa que você está acostumada a fazer nessa sua vidinha confortável e medíocre. Uh babe... Uh babe... Me dá um acorde em lá e se prepare pra se reinventar completamente. Bem-vinda ao mundo encantado dos que não consomem literatura por lazer. Dos que são feitos de tinta e papel e são literatura mais do que carne. Marquei uma reuniãozinha nas quebradas da rua augusta pra você conhecer minha galerinha e ir se enturmando logo no começo pra depois não dizer que eu faço você se sentir uma estranha. Porque pra ficar comigo vai ser desse jeito, por mais que doa e incomode. Estou aqui nesse mundo pra fazer doer e fazer incomodar. Fazer doer e fazer incomodar... Três e quarenta então? Naquela esquina suja entre as putas e os playboys da zona leste que se entopem oito ou nove dentro de um fiat um quatro sete e ainda racham a grana pra conseguir um mísero boquete de travesti sem dente? E no fim ainda fazem um sorteio (roleta russa com trinta e dois enferrujado de numeração raspada) pra saber quem será o felizardo desta noite. Estarei lá com meu compadre Artur, o junkie. E com o gordo do Jack. E com a piranha da Anais, com o velhinho do condomínio do Rubem, com o Leminksi, com o imbecil do Truman Capote, com a minha querida Clarice, com o deus supremo Oswaldo, com Cortazar, com Caio Fernando Abreu, com o pai do Luis Fernando Veríssimo. Estaremos ali ouvindo um violão do Kurt Cobain, quem sabe vendo um filme do Kubrick ou escrevendo e-mails com vírus pra algum Jean-Luc Godard que não saiba ler. Punhetando intelectualidades, como é característico dos autores que se escrevem por São Paulo. Entre um pico e outro de droga, pedir pro Iggy Pop dixavar mais um baseado, dar uns amassos e umas dedadas na mulher do Bowie e lamber a orelha da minha ex-atriz preferida: podia ser Anna Karina, podia ser Isabelle Huppert (por isso nos amamos e trepamos e fodemos em francês, língua porca e depravada). Sempre preferi a baixa boemia, sempre admirei como o maior dom divinal ou humano que se pode conceder a alguém essa capacidade de se manter invisível por detrás de uma coluna, só espiando e remoendo risadinhas sarcásticas. Mas voltarei ao palco pra fazer aquela cena de sexo explícito que o Nelson Rodrigues guardou só pra mim e pra você. Com direito a sangue e mordidas e manchas roxas sobre tua pele branca. Vem comigo por esse buraco, vamos escavar subterrâneos e vasculhar as passagens secretas e calabouços que nos levem para muito além desse mundo de ratos que se amontoam num sofá velho e rasgado pra assistir a novela das oito por detrás do reflexo da vitrine da loja de tevê. Eu odeio o seu amor, odeio essa sua maneira panaca de ser fina e meiga. Mas desejo seu corpo, preciso de um corpo jovem para dar prosseguimento ao macabro ritual – quero sobre o capô de um carro, encostada contra o poste toda arreganhada, seu bum-bum apoiadinho no mictório de uma balada podre, brutalidade e cheiros sobre o tampo do esgoto, eu, você e o que sobrar de nossas almas quando a aurora finalmente amanhecer. Quero conhecer na minha veia o HIV. Saltar etapas e me santificar por uma editora de pequeno porte, deixando aqui pra vocês somente uma pequena amostra (grátis o caralho) do que eu poderia fazer se tivesse vontade de ser um escritor que escreve pra qualquer rede globo. Só uma trepada assim (é, como você ta imaginando e querendo, assim mesmo, garota: uma trepada do caralho) e depois repouso eterno e o tédio enlatado pra curar da ressaca. Que venha o tiro e o pico e o carro desgovernado e a cama do hospital público senador nove de junho com sondas e cabos e tubos entrando e saindo pelo meu corpo magro. Que me amarrem e me amordacem e me mumifiquem ao lado do Lênin. Nunca fui mesmo mais do que um cadáver quando examinado do ponto de vista das garotas. Mas assim como as desprezo, queridas, as amo todas vocês. Nem só das noites de desamparo e solidão vive o desejo de um homem divergente pelas mulheres convencionais. Até porque agora a essa hora do ano tudo o que eu não quero é que você me convença. Beija primeiro e reclama depois.
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2 comentários:
puta que o pariu.
nada de analises subjetivas cheias de blás.
seco.
direto.
torto.
li de novo.
e o acho cada vez melhor.
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