segunda-feira, novembro 28, 2005

No fun, my babe, no fun!

Ele veio. Ato, presença e atitude – nada de poses pra sua fotografia amarela. Gestos de feiticeiro, imprevisivelmente hipnótico, o senhor de todas as festas. Que ninguém mais se atreva a subir num palco impunemente e tomar o microfone do rock n´roll pra berrar suas letrinhas de criança. O microfone é dele, o palco é dele, louvemos e profanemos. A energia escorre e nenhum recipiente, nenhuma área delimitada, nenhum espaço aberto ou fechado entre o céu e os infernos é capaz de conter e dar forma a essa explosão de sentidos e cores e sons. Um homem que dança. O homem que canta sobre um palco, o mesmo palco em cada país, em cada geração, em cada universo paralelo. Ele que com um olhar ou um sussurro já seria capaz de cometer um assassinato em massa, mas que grita, se acaba, rola pelo chão e atropela qualquer protocolo, qualquer lembrança fugaz daquele mundo capitalista ou daqueles valores burgueses que existiam antes de eu me deparar, numa noite palidamente mágica, com tal ser iluminado. A ordem existe enquanto pretexto para desfragmentar, fazer ruínas, passar por cima e erigir a fúria. Um monumento a fúria, ao Dionísio reencarnado e imortal que no breve intervalo de uma hora bombardeou São Paulo e transformou tudo em chamas de purificação. Um ritual sem hierarquia, todas as bacantes reunidas em comunhão com o sacerdote. Toda uma multidão paralisada e inerte dentro da palma da mão de um semi-deus. Semi-satã. Porque cada iniciado que deixou o templo após aquela noite de orgia sabe que não se trata de diversão. Os casais convencionais e as pessoas sempre corretas que fiquem com seu entretenimento babaca, alinhados em filas monótonas pra entupir cada lugar que poderia ser habitável num fim de semana. Trata-se de algo além. Vida ou morte. Ouvir Iggy & Stooges tocando tão perto é algo pra mudar sua vida e te fazer ser outra pessoa. Ou algo mais que uma pessoa. Muito mais que religião, que ideologia, que paixão ou passatempo, muito, mas muito mais do que uma mente normal e domesticada poderia conceber. É olhar a morte nos olhos, é abraçar a vida inteira de uma vez, é querer congelar o tempo e deixar as pulsões represadas ao longo de uma existência extravasarem num único gesto definitivo e contundente. É o rock n´roll (sinto ter de ser eu a lhe dizer isso, babe) e vale bem mais do que a soma de todo o resto.

Um comentário:

Anônimo disse...

Realmente o Iggy Pop é fabuloso seja como ator ou como o avô do Punk !
Deve ter sido incrivel ve-lo, adoraria ter ido, mas fiquei com preguiça de me esforçar por algo que eu desejava muito?
Quem vai entender os sentimentos humanos cheios de falhas ?