quarta-feira, novembro 23, 2005

Claro que não é só o rock

O primeiro que chegou foi o boato. Como em todo início de ano pop, vestindo trajes tropicais e usando óculos de sol com lentes enormes e castanhas, ele veio desde o hemisfério norte a bordo de seu hidroavião da década de 1940, que, como quase sempre, teve que fazer um pouso forçado de emergência à beira do Rio Paraguai. Boato sentou-se à mesa do nosso bar particular e soprou-nos nos ouvidos adolescidos sete nomes de conjuntos de rock: três da Grã-Bretanha, três dos Estados-Unidos da América e um da Austrália. Boato fala inglês com um sotaque forte de eslavo, mas tampouco nós, jovens educados em escolas públicas de classe média e que já passáramos com louvor pelo muro do vestibular, saberíamos decifrar alguma sílaba ou fonema do tal idioma anglo-saxão em meio à gritaria e ao barulho das faixas do CD gravado e sujo de cinzas e manchas de bebida.

E assim ele se foi, levando nossas drogas, nossa fé e nosso amor-próprio.

E o tempo passou sem sobressaltos sobre São Paulo. Dias de trabalho e dias de lazer noturno, poucas novidades tecnológicas e nenhum apoio a tendências estéticas ou políticas que pudessem porventura se mostrar ideológicas. E ao show se sucedia outro show, outra discotecagem, outro DJ. Eu e ela nos sentimos envelhecidos e fora do contexto em algumas ocasiões e Mário de Andrade já dizia que todo apogeu já é o início do declínio. Eu e ela que não damos certo juntos e nos amamos aos coices e cenas sem ciúmes, desfilando com cara de monstro e hálito de absinto pelas imediações da Paulista, às X e pouco da manhã. Porque foram tantas as manhãs abortadas em sono profundo sobre o sofá de um apartamento, que sempre foi tão útil pra absorver meus fracassos, esquecimentos e outros foras (de mim comigo mesmo: eu, eu, eu). Eu e ela que sempre nos embananamos ao cantar as letras berradas daquele triste dinossauro e entramos fora do tempo e fomos à aula de geometria só pra perder o compasso.

Um dia de bobeira, com certeza devia ser domingo e fazia algum sol: a gente tinha acabado de acordar. Eu, ela e outros eles sentados à volta de uma mesinha de boteco, almoçando cerveja e sanduíche, alguns x-salada outros x-frango com salada. Foi quando nossa amiga chegou. Sempre sorrisos e pernas de fora, elegante mesmo despenteada e de maquiagem borrada, ela veio, beijou um por um, puxou uma cadeira de plástico amarela e também se sentou. Nossa amiga Notícia. Acabara de vir do aeroporto após uma longa e sexual temporada em Paris. Notícia não queria saber de nada do Brasil nem fez muito suspense, daí logo entregou: sim, as sete bandas de rock, três dos Estados Unidos da América, uma da Austrália e três do Reino Unido, sim, as sete bandas que por toda vida esperávamos; nós, pobres fãs de música com guitarra num país de terceiro mundo, as sete bandas anunciadas pelas profecias impressas nos papiros do Egito, as sete bandas malditas viriam fazer um orgiástico festival na zona oeste de São Paulo. Notícia até confirmou as datas e tomou um copo americano e meio de cerveja com a gente (não lembrou de pagar a conta), mas partiu sem se despedir transformando-se numa ave de médio porte que alçou vôo pelos céus de São Paulo e se perdeu na imensidão cor de ferrugem do horizonte que não víamos, pois havia muitos prédios tapando nosso campo de visão.

No dia seguinte fomos à fila, compramos ingresso e entramos para uma nova seita tibetana que estava abrindo uma franquia no Brasil. Hoje, esperamos inertes e trocamos arquivos mp3, numa tentativa de aliviar a angústia de uma inútil contagem regressiva. Aprendi de cor quatro letras de música, mas espero não poder cantá-las no dia do festival porque, até esse show que eu tanto sonhei ver começar, eu já quero estar completamente sem voz. Eu e ela, tão incongruentes e assimétricos, um dia da nossa vida quem sabe desaguaremos num mínimo divisor comum. Sem voz, em êxtase, em comunhão. Eu e ela, sempre tão avessos ao padrão médio dessa sociedade burguesa, um dia estaremos ali junto a toda a meia dúzia de outros que pensam e sentem como nós. Seremos, de alguma forma, uma maioria por algumas horas e com certeza vamos aproveitar cada instante desse dia mágico pra desafogar tantos rios de opressão e tédio. Eu, ela, nosso palco calcado na grama do chão e o barulho capaz de preencher toda a imensidão do céu (jamais azul) de São Paulo. Seremos feitos de rock & roll. Amor é uma palavra pequena e insignificante. Pro nosso caso, só mesmo uma terapia a base de doses cavalares de morfina com paixão. Definitivamente, é algo além.