Não entrarei aqui no mérito da discussão de mocinhos e bandidos nem nos argumentos patéticos e superficiais mostrados na televisão. Assumo aqui um ponto de vista outro.
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O Brasil discute o fetiche de um objeto estritamente relacionado a morte: uma arma de fogo. Ao longo do século XX, as tecnologias e variedades desse gênero de artefatos proliferaram de forma prodigiosa e as máquinas de matar gente assumiram um papel cada vez mais relevante na cultura e no imaginário dos povos. Três dentre tal classe de objetos alcançaram praticamente todos os confins do planeta e desempenham uma função determinante para a reprodução da dominação social: as armas de fogo (desde o rojão até a bomba atômica), o automóvel e o cinema. Por razões de ordem prática, este ensaio abordará somente as armas.
A finalidade assassina do porte, comercialização ou uso de qualquer arma de fogo é clara e evidente, porém mascara o essencial: um revólver ou uma espingarda são, antes de tudo, instrumentos de intimidação, ou seja, a simples presença de um ser humano com uma arma, em qualquer recinto ou ambiente, já estabelece por si uma situação de temor e apreensão e confere a tal indivíduo um poder que alguns ingênuos crêem ser absoluto. Brincar de ser o poderoso - é o que exclama o cidadão que empunha um trinta e oito carregado e o depoista com macheza sobre o balcão de um boteco de periferia. Ou depois de uma fechada num cruzamento de avenidas em São Paulo, ou num bar de playboy na Vila Olímpia. Instrumento de intimidação por excelência, a arma é um prato cheio pra pessoas (sem muita psicanálise) com problemas para se afirmarem e portadoras de alguma carência emotiva que transborda e grita pelos seus subconscientes (embora elas finjam que não a reconheçam).
A arma de fogo também está relacionada ao campo semântico do masculino, remete ao arquétipo do guerreiro, embora Rambo aponte para uma ruptura se comparado a figuras como Aquiles ou o rei Artur. Infelizmente ruptura pra pior: diluição e empobrecimento do arquétipo. Apesar disso, o fascínio exercido pela arma de fogo e o espetáculo de destruição que ela pode proporcionar deram origem a um sem número de manifestações artísticas de primeira grandeza, dos futuristas italianos ao cinema de Hollywood.
No caso específico da formação histórica dos povos do continente americano, a arma de fogo foi o fator decisivo que permitiu a invasão e o posterior estabelecimento de populações de origem européia ou sob o domínio de europeus.
Em todos os casos se pode detectar que a arma de fogo é uma das principais ferramentas que os grupos dominantes utilizam para se reproduzirem enquanto classe e se perpetuarem no poder. Sua manipulação ou comercialização por indivíduos desimportantes e individualistas, o ponto central desse reverendo feito por e para engravatados, passa ao largo da questão fundamental, que é o monopólio da violência pelo estado burguês (polícia, exército, segurança particular, advogado, traficante) como forma de garantia da manutenção do status quo. No Brasil, status quo quer dizer níveis crônicos de desigualdade econômica, estado de direito, democracia representativa, dependência cultural, atraso tecnológico, guerra civil, ignorância, miséria, luta de classes, hipocrisia, crueldade, cinismo e confusão entre ação, palavra e pensamento. E isso tudo se articula em torno de nosso processo de formação histórica de povo colonizado e escravagista, de uma sociedade fundada sobre a violência e imensos abismos separando grupos de indivíduos (que ontem se diferenciavam pela cor da pele e hoje pode ser que pela roupa ou pelo saldo da conta bancária). Daí advém o inevitável retorno do reprimido, todas as pulsões e traumas convergindo num gigantesco manancial de energia represada e acumulada ao longo dos séculos e varrida para debaixo do tapete como um efeito colateral da constituição da eterna e desigual configuração social brasileira. O que explica porque aqui no Brasil se morra mais por arma de fogo do que no Iraque ou nos EUA. Apelar para um revólver para resolver seus problemas psíquicos é uma solução fácil e covarde. E como um gesto mínimo (muito mais simbólico do que efetivo), eu votarei sim, votarei contra a comercialização de armas de fogo nesse tal reverendo. Quero a reversão de certas engrenagens que estruturam essa máquina chamada civilização brasileira e penso que podemos liquidar algumas questões legadas por nosso passado e inventar um outro país sobre bases bem diferentes das aque até aqui nos sustentaram. Banir as armas e optar por canalizar o instinto de morte para atividades artísticas, lúdicas ou intelectuais seria um bom começo. Sem querer imitar a Europa nem os Estados Unidos nem ninguém, o Brasil pode inventar. Inventar ao invés de imitar. E é pra desamarrar meu país de certas obsessões de seu passado que eu voto sim e ficaria muito feliz se esse tal estatuto fosse aprovado e (o que é uma pena, mas infinitamente mais difícil) posto em prática.
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