quarta-feira, fevereiro 02, 2005

SEXTA-FEIRA COM CHUVA

A menina em questão e eu, no apartamento, tinha mais gente, tinha vinho e tinha pizza, tinha cartas na mesa. Pirei, chapei, passei mal. Normal, tipo, era como se a gente entrasse no castelo dos destinos cruzados (ou nem tão cruzados assim) eu e a menina em questão – de repente ela tava ali e jogava também. Jogar é como brincar, mas nesse caso envolvia pesos e balanças, sutilezas anti-gravitacionais que tavam ali pairando no espaço instantâneo de um olho até o outro. E eu fiquei mesmo ali jogado, tipo, sabia muito bem que podia ser muito mais, mas na minha cabeça tinha a questão da menina. Você já foi pra Vênus? Acho que lá deve ter gente com boca cor-de-rosa e olhos com a dimensão de galáxias... Mas não sei se cheguei mesmo a ir até Vênus, talvez tenha chegado até a porta e, tipo, dado meia volta. Onde estava minha força toda? Eu escorria que nem tinta fresca diluída em água de tempestade, me desfigurava entre uma menina e uma questão. Lembro que havia muita fumaça, era difícil enxergar os meio-tons na meia escuridão do abajur, meus olhos mesmo eram uma alucinação encarnada. Sei também que a intimidade em certas horas invadiu a sala, mas jamais chegou a se sentar no sofá. É possível tocar só com os olhos, sem dizer nada, sem pôr as mãos no braço da menina? Mas essa já é uma outra questão. E enquanto a noite chovia eu ia me encolhendo (cadê minha entrega? cadê minha presença?), tipo, pensava no ontem que tinha sido tão melhor – sorrisos, cervejas, risadas, vozes altas – e agora de novo eu de repente tinha perdido toda graça outra vez. Meu jeito torto de amar as pessoas. Fingir alegria se ainda havia a questão, fingir interesse seria escancarar demais meu coração. E se ela achar que eu não quero? Mas eu quero demais e sabia que não podia ser assim tão apático e medroso, cristal que cai e se espatifa em mil pedaços no chão. Transcende o lance das impressões, tá muito além do beijar ou não beijar, é muito mais a coisa de enxergar o ser amado como o ponto para o qual converge todo o nosso desejo. Toda a nossa insegurança. Comigo então nem se fala, será que depois de tanto tempo sozinho eu desaprendi? Amo e preciso arder. Amo e meu dever é conquistar. Aí tá a questão, aí tá a menina (olhos que lêem minhas letrinhas no papel). A menina em questão.
21/10/2001

Um comentário:

Anônimo disse...

Que pena que vc não é mais assim... Talvez nunca tenha sido, que pena.