segunda-feira, fevereiro 28, 2005

O BRASIL E A VIOLÊNCIA

O discurso sobre a violência é hegemônico em nossos dias. Domina a retórica dos políticos de todos os partidos, as páginas dos jornais, a ação das ONGs, a conversa dos pastores, das donas de casa e mesmo o imaginário dos cineastas; influencia até na escolha do lugar onde o cidadão almeja morar: os objetos de desejo nos dias de hoje são carros blindados e mansões de muros altos em condomínios fechados protegidas por mercenários muito bem armados.
Porém, quando invoca a violência como justificativa para tais atos insanos de paranóia e auto-defesa, o brasileiro médio faz uso de uma fraseologia oca, bastante cara às camadas dominantes do país, a qual supõe o comportamento violento como algo inerente e exclusivo a determinados maus indivíduos. Um grupo, aliás, não muito fácil de definir, já que nem todos são oriundos da miséria, tiveram poucos anos de escolaridade ou uma estrutura familiar precária. Genericamente denominados como bandidos e marginais, esses “outros” seriam em tudo distinto de “nós”, cidadãos de bem. Embora não sejam os únicos responsáveis pela onda avassaladora de violência que assola a cidade e o campo, são de fato os únicos que podem ser culpados e presos, já que não convém supor que fatores abstratos, tais como a desigualdade social e a falta de educação, cultura e infra-estrutura material, possam ser resolvidos da noite para o dia (aliás, esses fatores são vistos em nosso país mais como fenômenos da natureza do que como assuntos pertinentes aos políticos, juizes, desembargadores e policiais).
Tal raciocínio simplista mascara o fundamental: em nosso contexto histórico e social, a violência não é uma disputa de faroeste entre mocinhos e bandidos, mas sim a face mais visível de um enfrentamento de classes inconciliáveis e antagônicas, o qual se perpetua e renova desde as primeiras tentativas de expandir a civilização européia para este continente. É a velha história: de um lado, o punhado de possuídos com todo o aparato de um estado feito desde sempre por e para eles, além de um vasto arsenal bélico e ideológico de dominação, que vai da polícia e da justiça até o sistema educacional e a novela das oito. Do outro lado, nos deparamos com a massa de despossuídos, que conta com pouco mais do que seu instinto abnegado de sobrevivência e a força de ser uma gigantesca maioria, da qual os movimentos situados na outra margem da lei, como o tráfico de drogas e o MST, recrutam seus pequenos exércitos subversivos.
Uma luta desigual e com resultados previsíveis, mas que nem por isso deixa de ser travada diariamente, inclusive porque a dominação de classes precisa ser reafirmada a cada instante num ambiente hostil como o terceiro mundo, no qual a ordem capitalista e a correspondente ideologia burguesa (que hoje atende pelo nome de instituições democráticas), nunca se consolidaram plenamente e sem contestação.
Desse modo, podemos compreender a violência, para além da esfera jurídica e individual estabelecida, como o produto de um embate entre sujeitos históricos coletivos, que se dá nos mais variados campos da sociedade civil. A proliferação das relações humanas pautadas pelo autoritarismo e pela vontade de poder sádica e ilimitada, é um sintoma que pode ser verificado não só na esfera do trabalho e da política, mas também na família, nas relações amorosas, no convívio entre vizinhos, na arquitetura da exclusão que monopoliza a paisagem dos grandes centros urbanos, na indústria cultural e do lazer, no sistema educacional, na mídia, nas relações entre cidadão e estado intermediadas por uma monstruosa burocracia, nas seitas, nas igrejas, na relação do homem com o meio-ambiente e praticamente em qualquer outro nicho social para o qual voltemos nossa atenção.
Assim, chegamos a uma definição de violência bastante próxima daquela proposta pela filósofa Marilena Chauí: violento é o comportamento que transforma o outro em objeto e lhe nega a autonomia de agir como um sujeito livre. Disseminado por todos os indivíduos e presente nos menores atos cotidianos, o mal não pode ser identificado como um atributo exclusivo de um determinado grupo, que deve ser trancafiado em penitenciárias para expurgar o corpo social dos seus elementos nocivos. Devemos transferir o problema do mal da esfera da moral para a esfera da política, esta última entendida aqui como a arena dos debates públicos e de largo alcance e não como a comédia parlamentar-presidencialista-democrática encenada a cada quatro anos pelos eleitores para consolidar e legitimar uma ordem já de antemão estabelecida.
Tratar do problema com aqueles que se guiam pela religiosidade cega é mais complicado. De nada valem argumentos racionais para quem se orienta pelo irracional e pela revelação divina intermediada pelos pastores, médiuns e padres e que crêem sinceramente que o Mal é um problema relacionado com a influência do Demônio nesse planeta tão mal-criado por Deus. Aqui não vejo outra solução a não ser o enfrentamento aberto e escancarado: iluminismo ou morte.
Politizar o discurso da violência, de um modo que ele possa acolher suas diferentes nuances e modalidades, é desmascarar ideologias e inventar alternativas novas para organizar os homens e mulheres em sociedade. Não abriremos mão de nossas utopias de igualdade, justiça social, liberdade e não-violência. O discurso do conformismo e do fim da história, que sempre caíram tão bem para os poderosos e estão muito em voga desde 1989, não se sustentam quando defrontados com uma análise racional honesta e que leve em conta a urgência dos fatos que maltratam nossos olhos cada vez que damos dois passos pela calçada e nos deparamos com a miséria humana espalhada por todos os lados. A história evolui em espirais e em breve a energia vital represada pela violência de cima para baixo pode de explodir numa convulsão social que derramará muito sangue. E não é isso o que queremos para o nosso futuro.

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