Depois de sete anos e três meses, eu consegui me formar na faculdade. Não digo que fui um aluno exemplar, mas sobrevivi a quatro greves, três reitores e cinco mudanças radicais na estrutura ou na grade curricular do curso. Estudei dois anos e meio de húngaro e depois resolvi me mudar para o sânscrito, embora para a universidade conste que eu tenha me formado em neurolingüística. Pouco importa, aliás nada mais me importa agora que eu concluí meu terceiro grau.
Fui buscar o diploma ontem. Confesso que senti uma ponta de tristeza, algo como uma saudade por antecipação por estar visitando pela última vez um lugar que por tanto tempo fez parte do meu dia-a-dia. Mas era uma tristeza boa, misturada com a felicidade por estar encerrando mais um ciclo na trajetória do meu destino e partindo para horizontes mais largos, ou seja, o resto dos meus dias daqui pra frente. Claro que eu pretendo fazer mestrado, mas isso já vai ser uma outra história.
Depois que cheguei em casa, quando estava na cama pronto para dormir, fiquei olhando fixamente por um longo tempo para aquele papel e me admirava de poder ler nele o meu nome escrito. As imagens todas que eu guardo da minha vida passaram pela minha cabeça naquela hora. Sonho misturado com lembranças, sei que rolei muito pela cama antes de conseguir adormecer.
Hoje fui mandar pôr o papel do meu diploma numa moldura para poder pendurá-lo na parede da sala de casa. Procurei na internet uma empresa que me prestasse esse serviço e que fosse próxima de casa e não tive dificuldades para encontrá-la: Molduras Artísticas Cambará, rua Nelson Manequinho, 1654. Logo depois do almoço, coloquei o diploma numa pastinha de elástico azul-marinho, tomei um ônibus, caminhei uns cinco quarteirões e enfim cheguei ao tal endereço. Numa rua tranqüila e arborizada, entre imóveis residenciais e um pequeno comércio de bairro de classe média aburguesada, localizei um sobradinho pintado de rosa e salmão, no qual uma tabuleta retangular com erros de ortografia e uma vitrine mixuruca com uma grade na frente, indicavam se tratar da loja de molduras que eu procurava.
Entrei e logo dei de cara com um balcão, que estava vazio. Procurei por um sininho ou algo do gênero para chamar a atenção, mas não encontrei nada. Notei os diversos modelos de molduras pendurados e espalhados pelo recinto, de todas as variedades, formatos e tamanhos que você possa imaginar. Do outro lado do balcão, havia uma estante de madeira com uns objetos de decoração toscos, alguns livros, cadernos e talões de nota fiscal; além disso, uma porta branca entreaberta ligava a sala com um outro cômodo que eu não podia ver, mas do qual vinham alguns barulhos de martelada esporadicamente. Um telefone tocou e uma voz de homem atendeu: Cambará Molduras Artísticas, boa tarde. Sem que eu percebesse muito bem de onde, uma mulher muito nova e sorridente surgiu e de pronto me disse: pois não, em que posso ajudá-lo? Respondi que queria uma moldura para o meu diploma e fui abrindo a pastinha de plástico azul-turquesa. Depois, entreguei a folha de papel para a moça, que tinha dedos fortes e roliços, um nariz muito bem esculpido e uns olhos deslumbrantes, embora o corpo e a estatura não fossem lá muito proporcionais ao conjunto. Ela mal se deu ao trabalho de ler o que estava escrito no meu certificado e logo sacou um fichário preto com a capa descascando que estava embaixo do balcão, me dizendo assim:
- Que tipo de moldura o senhor deseja? Temos aqui diversos modelos, veja só.
E começou a folhear o fichário, comentando e descrevendo os diferentes materiais, cores, comprimentos e texturas disponíveis. Sinceramente, eu não conseguia distinguir bulhufas e nem demonstrei empatia por nenhuma das molduras em particular, até porque estava ocupado demais tentando olhar para os peitos da mulher pelo decote quando ela se abaixava ligeiramente para virar as páginas moles com as figuras do fichário. Só me recordo que no final ela disse algo como:
- E temos aqui um produto que é uma exclusividade da loja, uma novidade no mercado que promete revolucionar o conceito de design de molduras, incorporando uma tecnologia inovadora, que o meu patrão mandou trazer da China.
- Mas do que se trata especificamente? – eu disse.
- Se eu te contar você vai achar que é mentira, que eu estou querendo tirar uma com a sua cara, você não vai acreditar.
- Conta logo. Fiquei curioso.
- Bom, trata-se de uma moldura super prática e moderna que, pasmem, dispensa o uso de pregos e adere sozinha à parede, podendo inclusive ser pendurada de ponta-cabeça ou mesmo no teto! – disse ela extasiada.
- E como funciona isso? – eu disse
- Funciona por um processo de reversão de íons à vácuo, que ocorre quando se desencadeia uma reação entre um certo componente químico da tinta e a parte detrás da moldura, que é revestida com um material todo especial fabricado numa base militar chinesa num arquipélago do oceano Índico e vem importado diretamente para cá. Somos os primeiros distribuidores a trabalhar com esse produto na América Latina. – ela falou, toda empolgada
- E que material todo especial é esse? – eu disse sem muito entusiasmo, mais para manter a conversa
- A composição exata é segredo industrial e nem o meu patrão sabe, mas o que eu posso te dizer é que é uma fibra sintética a base de ironia.
- Você quer dizer que essa moldura que não precisa de pregos é feita de ironia?
- Exatamente. Uma moldura de ironia nas cores café, bege e hortelã.
Olhei com mais atenção para o fichário e me decidi:
- Vou levar essa aí mesmo, café. Quando posso vir buscar?
- Olha, se o senhor preferir a gente pode estar entregando o produto na sua residência no prazo de dois dias úteis.
- Não, não. Não precisa, não. Eu mesmo venho buscar. Será que até amanhã no final da tarde fica pronto?
- Claro, isso com certeza. O senhor você vindo nesse horário que veio hoje já estará prontinha a sua moldura, eu posso garantir.
- Então tá ótimo. E quanto custa essa moldura feita de irenia? É irenia que fala?
Ela mudou um pouco de tom ao dizer:
- Eu vou ser sincera com você: o custo da moldura de ironia é um pouquinho maior do que o das outras, porque o senhor entende, trata-se de um produto importado e a cotação do iene subiu.
- Não tem importância. Pode encomendar essa daí mesma que eu gostei. Bom, então vou indo, muito obrigado e até amanhã.
- Eu que agradeço. Volte sempre. Tchau. – ela sorriu gostoso e fez um aceno com a mão.
- Tchau.
Não sei se ela compreendeu bem que eu queria voltar amanhã para poder vê-la de novo, mas tudo bem. O que importa é que a partir de amanhã eu serei um homem com um diploma na parede.
Nenhum comentário:
Postar um comentário