sexta-feira, janeiro 28, 2005

6 - A podridão é a matéria prima do poema

A podridão é a matéria-prima do poema
Usina de reciclagem dos odores fétidos
Antídoto pro gosto amargo da náusea de ver
E tocar com os dedos a miséria que te pede um cigarro,
Dinheiro prum lanche, um trocado, uma atenção, um gole de cachaça
Ou às vezes muito menos do que isso porque ele ou ela
Que ninguém nem se importa em saber se tem nome ou existe
Muitas vezes já não pode nem falar
Porque desaprendeu ou nunca aprendeu
Essa linguagem do apelo e da ameaça
E não tomou café nem almoçou hoje
Sendo incapaz sequer de erguer um braço
Nem mesmo o olhar desde as sarjetas
Ninhos de barata, aterros sanitários
Nem mesmo um brado retumbante bastaria pra acordar essa gente
E fazê-los tomar as ruas e marchar pelas estradas
Com o pé no barro e o olhar do morto-vivo,
Do indigente, do mendigo, do catador de papelão
Nem mesmo um tal exército severino obteria êxito
Tentando fazer a revolução no Brasil.

Um comentário:

Barbara Falcão disse...

Belíssimo, gostei da imagem - exército severino -